
É com muita alegria que deixo a vocês essa emocionantíssima carta do nosso Santo Papa João Paulo II aos artistas, leiam e matem um pouquinho da saudade desse Santo homem .
Abraços Deus abençoe a todos amados (Andressa -Ministério de música Jovens Consagrados)
(João Paulo II) 1999
A todos aqueles que apaixonadamente procuram novas “epifanias” da beleza para oferecê-las ao mundo como criação astística.
“Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Genesis 1,31)
• O Artista, imagem de Deus Criador
Ninguém melhor do que vós, artista, construtores geniais da beleza, pode intuir algo daquele fato com que Deus, na aurora da criação, contemplou a obra de suas mãos. Infinitas vezes se espelhou um relance daquele sentimento no olhar com que vós – como, aliás, os artistas de todo os tempos, maravilhados com o arcano poder dos sons e das palavras, das cores e das formas, vos pusestes a admirar a obra nascida do vosso genio artístico, quase sentido o eco daquele mistério da criação a que Deus, único criador de toda as coisas, de algum modo vos quis associar.
Pareceu-me, por isso, que não havia palavras mais apropriadas do que as do livro do Genesis para começar esta minha Carta para vós, a quem me sinto ligado por experiência dos meus tempos passados e que marcaram indelevelmente a minha vida. Ao escrever-vos, desejo dar continuidade aquele fecundo diálogo da Igreja com os artistas que, em dois mil anos de história, nunca se interrompeu e se prevê ainda rico de futuro no limiar do terceiro milênio.
Quanto mais consciente está o artista do “dom” que possui, tanto mais se sente impelido a olhar para si mesmo e para a criação inteira com olhos capazes de contemplar e agradecer, elevando a Deus os seu hino de louvor. Só assim é que ele pode compreender-se profundamente a si mesmo e à sua vocação e missão.
• A vocação especial do artista
Nem todos são chamdos a ser artistas, no sentido específico do termo. Mas, segundo a expressão do Genesis, todo o homem recebeu a tarefa de ser artífice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima.
“A nossa única arte é a fé, e Cristo é nosso canto”
Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a História da Arte falam dos seus autores, dão a conhecer a seu intimo e revela, o contributo original que eles oferecem à história da cultura.
• A vocação artística ao serviço da beleza
O tema da beleza é qualificante, ao falar de arte. Ao pôr em relevo que tudo o que tinha criado era bom, Deus viu também que era belo.
• O artista e o bem comum
De fato, a sociedade tem necessidade de artista.
A vocação diferente de cada artista, ao mesmo tempo que determina o âmbito do seu serviço, indica também as tarefas que deve assumir, o trabalho duro a que tem de sujeitar-se, a responsabilidade que deve atuar sem deixar-se dominar pela busca duma glória efêmera ou pela ânsia de uma popularidade fácil, e menos ainda pelo cálculo do possível ganho pessoal.
Assim comenta Macário, o Grande, a beleza transfigurante a libertadora que erradia do Ressuscitado: “A alma que foi plenamente iluminada pela beleza inexprimível da glória luminosa do rosto de Cristo, fica cheia do Espirito Santo... é toda olhos, toda luz, toda rosto.”
• O caminho dum renovado diálogo
Vós sabeis que a igreja continuou a nutrir grande apreço pelo valor da arte enquanto tal. Enquanto busca do belo, fruto duma imaginação que voa mais acima do dia-a-dia, a arte é, por sua natureza, uma espécie de apelo ao Mistério. Mesmo quando perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista torna-se de qualquer modo, voz da esperança universal de redenção.
• No espírito do Concílio Vaticano II
Na Constituição Pastoral Gaudium et spes, os Padres Conciliares sublinharam a grande importância da literatura e das artes na vida do homem: Elas procuram dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e a experiência da suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situação na historia e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor.
Baseados nisto, os Padres, no final do Concílio, dirigiram aos artistas uma saudação e um apelo nestes termos: “O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero”. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração.
• A Igreja precisa da arte
Para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte. Ora, a arte possui uma capacidade muito propria de captar os diversos aspectos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intuição de que os vê e ouve.
A Igreja tem igualmente necessidade dos músicos. Crente sem número alimenteram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outro crentes, que se tornaram parte da liturgia ou apelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus.
• A arte precisa da Igreja?
A verdade é que o cristianismo, em virtude do dogma central da encarnação do Verbo de Deus, oferece ao artista um horizonte particularmente rico de motivos de inspiração. Que grande empobrecimento seria para a arte o abandono desse manancial inexaurível que é o Evangelho!
• Apelo aos artistas
Com esta Carta dirigi-me a vós, artistas do mundo inteiro, para vos confirmar a minha estima e contribuir para o restabelecimento duma cooperação mais profícia entre a arte e a Igreja.
Convido-vos a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres. Nesta perspectiva, faço-vos um apelo a vós, artistas da palavras escrita e oral, do teatro e da música, das artes plásticas e das mais modernas tecnologias de comunicação. Este apelo dirigo-o de modo especial a vós, artistas cristãos: a cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem.
• Espírito Criador e inspiração artística
Ao Espírito Santo, “o Sopro”, acena já o livro do Genesis: “A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas.” Existe grande afinidade lexical entre “sopro expiração e inspiração.” O Espírito é o misterioso artista do universo. Na perspectiva do terceiro milênio, faço votos de que todos os artista possam receber em abundância o dom daquelas inspirações criativas donde tem início toda a autêntica obra de arte.
• A “beleza”que salva
Já no limiar do terceiro milênio, desejo a todos vós, artistas carissimos, que sejais abençoados, com particular intensidade, por essas inspirações criativas.
Acompanhe-vos a Virgem Santa, a “toda bela”, cujo efígie inumeráveis artista deliniaram e o grande Dante contempla nos esplendores do Paraíso com “beleza, que a alegria era os olhos de todos os outros Santos.”
Com os meus votos mais cordiais!
Vaticano, 04 de abril de 1999, Solenidade da Páscoa da Ressurreição